Sem contar com o brilho individual de outras seleções, a Espanha encontrou na força do coletivo o caminho para chegar à final da Copa do Mundo. Sob o comando de Luis de la Fuente, a equipe manteve sua tradicional identidade baseada na posse de bola, mas elevou o jogo coletivo ao principal diferencial da campanha.
Após a vitória sobre a França na semifinal, o treinador resumiu a filosofia que norteia o grupo.
"Enfrentamos uma das melhores seleções do mundo, mas eles tiveram pela frente a melhor equipe do mundo. Esse é o segredo: somos uma equipe."
A declaração sintetiza o trabalho desenvolvido desde que De la Fuente assumiu o comando da seleção após a eliminação para o Marrocos, nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2022. Inspirada em um conceito que marcou a geração de ouro do basquete espanhol, a comissão técnica apostou na ideia de construir uma verdadeira "família" dentro da seleção.
Segundo o treinador, o ambiente interno foi um dos pilares da campanha. Ele destacou que não houve qualquer problema entre os jogadores durante toda a concentração, inclusive entre aqueles que tiveram poucas oportunidades em campo.
"O segredo é saber escolher os companheiros de viagem. Se você errar na escolha, pode ter uma viagem ruim, e nós temos os melhores companheiros."
De la Fuente também reforçou que o grupo coloca o interesse coletivo acima das ambições individuais.
"O bem comum vem antes do bem pessoal."
O treinador fez questão de elogiar o comprometimento do elenco.
"Estes jogadores merecem tudo porque demonstram, dia após dia, comprometimento, generosidade, solidariedade e talento. Foi maravilhoso vê-los jogar hoje. Eles tornam fácil o que é tão difícil."
Essa união se reflete principalmente no desempenho defensivo. A Espanha sofreu apenas um gol em toda a Copa — nas quartas de final contra a Bélgica — e tornou-se a primeira seleção a registrar seis partidas sem ser vazada em uma única edição do Mundial.
Para o ex-atacante sueco Zlatan Ibrahimovic, comentarista da Fox durante o torneio, o sucesso espanhol não está em um único jogador.
"A estrela é a equipe. Tudo o que fazem, fazem como equipe."
Antes da semifinal, o poderoso ataque francês, formado por nomes como Mbappé, Olise, Dembélé, Barcola e Doué, era apontado como uma das maiores ameaças da competição. No entanto, a Espanha neutralizou os Bleus com uma atuação baseada em posse de bola, controle do ritmo, pressão constante e organização coletiva.
A campanha amplia uma marca impressionante: são 37 partidas consecutivas sem derrota no tempo regulamentar — a decisão da Liga das Nações contra Portugal, perdida nos pênaltis, é contabilizada oficialmente como empate.
O ex-atacante francês Thierry Henry também destacou a consistência do trabalho realizado pelo futebol espanhol em todas as categorias.
"Há muito tempo, a Espanha tem uma identidade e uma filosofia de jogo consistentes em todas as categorias: seleções femininas, de base, olímpicas... Todos os jogadores sabem exatamente como o jogo é jogado. Quando a Espanha tem a bola, não a devolve; você precisa ir buscá-la. Qualquer jogador que chega sabe exatamente como deve jogar."
Henry ainda elogiou a evolução do sistema espanhol como um todo.
"Quero parabenizar a seleção espanhola, campeã europeia, mas também destacar todo o sistema do futebol espanhol. Eles não estavam acostumados a vencer, mas agora vencem em todos os níveis."
Com a mesma filosofia que levou o país ao título mundial em 2010, a Espanha chega à decisão deste domingo em busca da segunda conquista da Copa do Mundo, apostando, acima de tudo, na força de um coletivo que transformou identidade em resultado.